VISÃO ESPIRITUALÍSTICA DA MÚSICA A LÓGICA DA CRIAÇÃO - Oswaldo Montenegro

 


VISÃO ESPIRITUALÍSTICA

A Lógica da Criação

Oswaldo Montenegro

1-O mérito é todo dos santos
O erro e o pecado são meus
Mas onde está nossa vontade
Se tudo é vontade de Deus?

2- não sei ler direito
A lógica da criação
O que vem depois do infinito
E antes da tal explosão?

3- que que o tal ser humano
Já nasce sabendo do fim?
E a morte transforma em engano
As flores do seu jardim

4- que que Deus cria um filho
Que morre antes do pai?
E não pega em seu braço amoroso
O corpo daquele que cai

5-Se o sexo é tão proibido
Por que ele criou a paixão?
Se é ele que cria o destino
Eu não entendi a equação

6-Se Deus criou o desejo
Por que que é pecado o prazer?
Nos pôs mil palavras na boca
Mas que é proibido dizer
(Ora pro Nobis)
(Ora pro Nobis)

7-Porque se existe outra vida
(Ora pro Nobis)
Não mostra pra gente de vez
Por que que nos deixa nos escuro
Se a luz ele mesmo que fez?

8-Por que me fez tão errado
Se dele vem a perfeição?
Sabendo ali quieto, calado
Que eu ia criar confusão

9-E a mim que sou tão descuidado
Não resta mais nada a fazer
Apenas dizer que não entendo
Meu Deus como eu amo você!

 

1. Introdução

A letra da canção "A Lógica da Criação", de Oswaldo Montenegro, contida no arquivo "A lógica da criação.docx", constitui uma meditação poética sobre os mistérios da existência divina, o livre-arbítrio humano e o sofrimento inerente à condição mortal.

Sob a óptica espiritualista codificada por Allan Kardec, fundador do Espiritismo na obra seminal O Livro dos Espíritos (1857), esta composição revela-se não como um lamento cético, mas como um questionamento profundo alinhado à doutrina da progressão espiritual, onde a aparente arbitrariedade da criação reflete a lei de causa e efeito, a reencarnação e a evolução dos espíritos em mundos sucessivos. A tese central desta análise postula que a letra, através de suas interrogações retóricas, dialoga intimamente com os princípios kardecistas, ilustrando o percurso do espírito encarnado em sua jornada expiatória e regeneradora, e convidando o leitor a uma reflexão sobre a justiça divina imanente.

2. Fundamentação Teórica

O Espiritismo de Allan Kardec, sistematizado entre 1857 e 1868 em obras como O Livro dos Espíritos, O Livro dos Médiuns (1861), O Evangelho segundo o Espiritismo (1864), O Céu e o Inferno (1865) e A Gênese (1868), representa uma filosofia espiritualista racional, ancorada na revelação mediúnica e na razão científica do século XIX. Seus princípios fundamentais incluem a lei de causa e efeito, que estabelece a justiça divina como equilíbrio entre ações passadas e presentes (O Livro dos Espíritos, q. 639-657); a reencarnação, mecanismo de evolução espiritual através de múltiplas existências (O Livro dos Espíritos, q. 166-226); a pluralidade dos mundos habitados, postulando uma hierarquia cósmica de esferas progressivas (A Gênese, cap. VI); e a mediunidade, como instrumento de comunicação entre o plano material e espiritual (O Livro dos Médiuns, cap. II). Historicamente, o Espiritismo surge no contexto positivista francês pós-1848, contrapondo-se ao materialismo ateu e ao dogmatismo católico, propondo uma síntese entre fé, ciência e filosofia. Filosoficamente, dialoga com o platonismo e o cristianismo primitivo, enfatizando o livre-arbítrio como motor da expiação e da caridade.

3. Análise da Obra "A Lógica da Criação.docx"

Os temas centrais da letra – mérito divino versus erro humano, a "lógica da criação" incompreensível, o conhecimento inato da morte e o sofrimento filial – ecoam a cosmogonia kardecista. O eu lírico inicia: "O mérito é todo dos santos / O erro e o pecado são meus / Mas onde está nossa vontade / Se tudo é vontade de Deus?", questionando o predeterminismo[1] teológico. Sob a perspectiva kardecista, isso alinha-se à lei de causa e efeito: o "pecado" não é culpa originária, mas resíduo kármico de existências pretéritas, enquanto a "vontade de Deus" é a harmonia das leis naturais, preservando o livre-arbítrio (O Livro dos Espíritos, q. 845-851). A interrogação "O que vem depois do infinito / E antes da tal explosão?" evoca a pluralidade dos mundos: a "explosão" (Big Bang moderno) precede ciclos de criação espiritual, com mundos em transição para esferas superiores como é visto em A Gênese, cap. VI.

Em O ser humano que "já nasce sabendo do fim" reflete a intuição espírita da imortalidade, herdada de vidas anteriores (O Livro dos Espíritos, q. 199-202), e a morte como "engano" que corrompe "as flores do seu jardim" simboliza a ilusão material sobre o perispírito, veículo imortal (O Livro dos Médiuns, cap. XII). Simbolicamente, o "jardim" metaforiza o plano terrestre como expiação, onde a beleza efêmera testa a fé. O clímax – "Por que que Deus cria um filho / Que morre antes do pai? / E não pega em seu braço amoroso / O corpo daquele que cai" – dialoga diretamente com a reencarnação: a morte prematura é expiação por faltas passadas, e o "braço amoroso" ausente é o conforto dos espíritos protetores, condicionado ao merecimento (O Céu e o Inferno, cap. II). Não há contradições irreconciliáveis; ao contrário, a tensão poética reforça a doutrina da justiça divina, ausente de arbitrariedade.

Personagens implícitos – o eu pecador, Deus como arquiteto e o filho sofredor – personificam estágios evolutivos: do inferior ao regenerado, via mediunidade intuitiva que capta verdades eternas.

Interpretação Verso a Verso

Primeira estrofe: O conflito entre vontade e mérito

"O mérito é todo dos santos / O erro e o pecado são meus / Mas onde está nossa vontade / Se tudo é vontade de Deus?"

Em relação à doutrina vemos o eu-lírico inicia com uma dicotomia clássica. Na Nomenclatura Gramatical Brasileira (NGB), o uso da conjunção adversativa "mas" introduz o impasse filosófico. O Espiritismo esclarece este ponto através da Lei de Liberdade (O Livro dos Espíritos, Questão 843[Livre Arbítrio]).

·      Mérito e erro: A Doutrina ensina que o mérito não é "dos santos" por privilégio, mas por esforço próprio em múltiplas existências. O "erro" (ou pecado, no sentido etimológico de errar o alvo) é o resultado do uso equivocado do livre-arbítrio.

·      Vontade de Deus X Vontade humana: Deus estabelece as Leis naturais (imutáveis), mas concede ao homem a liberdade de ação dentro dessas leis. A "vontade de Deus" é que todos evoluam; a "nossa vontade" é o motor que determina a velocidade e o caminho dessa evolução. Não há determinismo absoluto, mas sim uma Lei de causa e efeito.

Segunda estrofe: A limitação do conhecimento

"Apenas não sei ler direito / A lógica da criação / O que vem depois do infinito / E antes da tal explosão?"

Visão Doutrinária: Aqui, a letra aborda a Gênese Espiritual e a limitação dos sentidos humanos.

·      “Ler direito”: O Espiritismo define Deus como a "Inteligência Suprema, causa primária de todas as coisas" (Questão 1). A dificuldade em "ler" a lógica divina decorre do nosso estágio evolutivo (Mundo de Provas e Expiações).

·      “Infinito” e “explosão”: A ciência busca o "Big Bang" (a explosão), enquanto a filosofia busca o "Infinito". Para o espírita, o universo é eterno em sua essência criativa. O "antes" e o "depois" são conceitos temporais que perdem o sentido na espiritualidade pura, onde o tempo é substituído pelo estado de consciência.

Terceira estrofe: A Transitoriedade e a morte

"Por que que o tal ser humano / Já nasce sabendo do fim? / E a morte transforma em engano / As flores do seu jardim"

O questionamento foca na Lei de destruição e na finitude da matéria, aspectos puramente materialistas.

·      “Sabendo do fim”: O instinto de conservação é uma lei, mas a consciência da morte é um convite à reflexão sobre a Imortalidade da alma. O "fim" não existe para o Espírito, ele é apenas para o invólucro carnal.

·      “Flores” “em engano”: As "flores do jardim" simbolizam as conquistas materiais e os afetos puramente terrenos. O Espiritismo ensina que a morte não é um engano, mas uma libertação, devolvendo o Espírito à sua verdadeira pátria. O "engano" está em crer que a vida na Terra é a única realidade, mas com certeza temos sim, um porvir.

Quarta estrofe: A dor da perda e a proteção divina

"Por que que Deus cria um filho / Que morre antes do pai? / E não pega em seu braço amoroso / O corpo daquele que cai"

·      Análise pelo aspecto doutrinário: Este é um dos pontos mais sensíveis: a morte prematura e o sofrimento. Do ponto de vista espiritualista, ninguém caminha por outro, nem desperta à força. A doutrinação tenta moldar o espírito de fora para dentro, impondo crenças prontas e caminhos fechados. Já o verdadeiro ensinamento espiritual não aprisiona: - ilumina.

Quando transmitimos ensinamentos sem doutrinar, estamos semeando luz na consciência, oferecendo referências para que o espírito, em seu tempo e maturidade, reconheça a própria verdade. Não conduzimos pela mão: apontamos a direção, confiando que cada alma saberá quando e como caminhar.

 

·      Morte prematura: O Evangelho Segundo o Espiritismo (Cap. V) explica que a morte de crianças ou jovens pode ser uma expiação para o pai, uma prova de resignação, ou uma interrupção necessária para o Espírito que já cumpriu sua breve missão.

·      “Braço amoroso”: A letra questiona a ausência de intervenção física de Deus. A teologia espírita responde que o "braço amoroso" de Deus se manifesta através dos Espíritos protetores (Anjos da Guarda) que acolhem a alma, e não necessariamente impedindo a queda do corpo físico, que está sujeito às leis da biologia e da gravidade.

Quinta estrofe: O conflito entre desejo e moral

"Se o sexo é tão proibido / Por que ele criou a paixão? / Se é ele que cria o destino / Eu não entendi a equação"

Vemos aí que o eu-lírico aponta uma contradição entre a natureza humana e as proibições religiosas dogmáticas.

    ·      “Sexo” e “paixão”: O Espiritismo não vê o sexo como proibido, mas como uma função sagrada de procriação e união afetiva, que deve ser regida pela Lei de Amor e pelo respeito mútuo. A paixão é um impulso natural que, se não for equilibrado pela razão, torna-se obsessão, o que não é bom.

    ·      “Equação” do destino: O "destino" não é uma imposição arbitrária, mas o planejamento reencarnatório aceito pelo próprio Espírito antes de nascer. A "equação" fecha quando entendemos que as tendências (paixões) são ferramentas de aprendizado.

Sexta estrofe: Prazer e repressão

"Se Deus criou o desejo / Por que que é pecado o prazer? / Nos pôs mil palavras na boca / Mas que é proibido dizer"

    ·      “Desejo” e “prazer”: O prazer é um mecanismo de recompensa da natureza. O "pecado" reside no excesso e na desumanização do outro. A Doutrina Espírita propõe a Educação dos desejos em vez da sua repressão.

    

  · Palavras proibidas: Reflete a repressão social e religiosa. O Espiritismo valoriza a liberdade de pensamento e a sinceridade, desde que pautadas na caridade (não ferir o próximo).

Sétima estrofe: O véu do esquecimento

"Porque se existe outra vida / Não mostra pra gente de vez / Por que que nos deixa nos escuro / Se a luz ele mesmo que fez?"

- O verso toca na questão do Esquecimento do passado.

    ·      “Escuro” X “luz”: Se lembrássemos de nossas vidas passadas (a "luz" total), o peso da culpa ou do ódio poderia paralisar nosso progresso. O "escuro" do esquecimento é uma benção de misericórdia, permitindo-nos recomeçar com uma "folha em branco" (tabula rasa relativa), focando no presente para construir o futuro. A revelação é progressiva, conforme a maturidade do Espírito.

Oitava estrofe: Perfeição e imperfeição

"Por que me fez tão errado / Se dele vem a perfeição? / Sabendo ali quieto, calado / Que eu ia criar confusão"

 

·      “Fez tão errado”: Deus cria o Espírito "simples e ignorante" (Questão 115), mas com o germe da perfeição. O "erro" não vem de Deus, mas do processo de um permanente aprendizado.

·      “Criar confusão”: Deus, em sua presciência, sabe que falharemos, mas permite a falha porque ela é digamos, pedagógica. Sem a possibilidade do erro, não haveria livre-arbítrio real, e seríamos apenas autômatos da perfeição, sem mérito algum.

Nona estrofe: A entrega pelo Amor

"E a mim que sou tão descuidado / Não resta mais nada a fazer / Apenas dizer que não entendo / Meu Deus como eu amo você!"

O desfecho é a Redenção pelo sentimento.

    ·      Descuidado: Reconhecimento da própria imperfeição e necessidade de vigilância. Orai e vigiai nos diz a Bíblia.

    ·      “Não entendo”, mas “amo você”: Esta é a síntese da fé raciocinada que deságua na fé amorosa. Quando a lógica intelectual humana falha em compreender a magnitude divina, o sentimento (amor) preenche a lacuna. O Espiritismo ensina que o amor é a lei maior que resume toda a lógica da criação.

 

Conclusão: A evolução como lógica suprema

A análise da letra "A Lógica da Criação" sob o prisma espírita revela que os questionamentos do autor são, na verdade, os degraus da dialética da alma. O que parece contradição (Deus perfeito fazendo seres imperfeitos, luz criando escuridão) é, sob a óptica da reencarnação, um processo educativo.

A "lógica" divina não é a lógica formal humana, limitada ao tempo de uma vida biológica. É uma lógica de eternidade, onde a dor é remédio, o esquecimento é oportunidade e a morte é renascimento. A canção termina com uma declaração de amor, o que é profundamente coerente com a orientação espírita: a inteligência pode não alcançar Deus em sua totalidade, mas o coração, através da evolução moral, pode senti-lo o e amá-lo plenamente.

 

Bibliografia consultada:

KARDEC, Allan.O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB.

KARDEC, Allan.A Gênese. Rio de Janeiro: FEB.

KARDEC, Allan. A gênese: os milagres e as predições segundo o espiritismo. 54. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2014.

KARDEC, Allan. O céu e o inferno: ou a justiça divina segundo o espiritismo. 50. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2013.

KARDEC, Allan. O livro dos médiuns. 76. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2008.

KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. 74. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2010.

MONTEIRO, Clóvis de Barros. Espiritismo brasileiro: história e antropologia. São Paulo: Ática, 1983.

UBALDI, Pietro. A grande síntese: estudo da evolução da alma. 12. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1995.

 

                     ANÁLISE VISANDO O SIGNIFICADO DA LETRA

Dúvidas e fé em "A Lógica da Criação" de Oswaldo Montenegro (Pelo site https://www.letras.mus.br/).

"A Lógica da Criação", de Oswaldo Montenegro, aborda de forma direta as contradições entre a ideia de um Deus perfeito e as imperfeições humanas. No trecho “O mérito é todo dos santos / O erro e o pecado são meus / Mas onde está nossa vontade / Se tudo é vontade de Deus?”, o artista questiona o livre-arbítrio e a responsabilidade individual diante de um destino supostamente guiado por uma vontade superior. Essa reflexão remete ao dilema do personagem bíblico Jó, que também buscava entender o sofrimento e a lógica divina, e se conecta ao contexto do filme "Solidões", onde a música acompanha a busca solitária por redenção e sentido.

A letra ainda traz questionamentos sobre temas como a morte precoce (“Por que que Deus cria um filho / Que morre antes do pai?”), o desejo e o prazer (“Se Deus criou o desejo / Por que que é pecado o prazer?”) e a busca por respostas que nunca chegam de forma clara (“Porque se existe outra vida / Não mostra pra gente de vez”). Essas perguntas, muitas vezes sem resposta, reforçam o tom de perplexidade e afeto, culminando na confissão: “Apenas dizer que não entendo / Meu Deus como eu amo você!”. Montenegro expressa um amor incondicional, mesmo diante da incompreensão, refletindo a postura do apóstolo Tomé, que buscava provas, mas mantinha sua fé. Assim, a canção traduz a solidão existencial e a busca por sentido, reconhecendo a beleza e o mistério do divino sem perder a ternura.

OLHAR PARA APENAS 6 MÚSICAS

Ao analisarmos as letras das músicas: “A lógica da criação”, “A lista”, “Metade”, “Agonia”, “Bandolins” e “Vida de artista” juntas, deixando as outras dezenas, perceberemos que o "fio condutor" de Oswaldo Montenegro é a insatisfação com respostas fáceis. Seja no amor (Madalena), na religião (“A lógica da criação) ou na sociedade ("A lista), ele sempre coloca o indivíduo como um ser angustiado em busca de sentido.

  


·       [1] É importante entender as nuances que o diferenciam de conceitos semelhantes:

 ·       Predeterminismo vs. Determinismo:

o   Determinismo afirma que cada evento é causado por eventos anteriores seguindo leis naturais (causa e efeito).

o   Predeterminismo vai além, sugerindo que o futuro já está "escrito" ou fixado desde o início dos tempos, como um roteiro imutável.

·       Predeterminismo vs. Fatalismo: Enquanto o Predeterminismo foca na cadeia de causas que fixa o futuro, o Fatalismo é a ideia de que certos destinos ocorrerão independentemente das ações humanas.

·       Contexto Religioso: No âmbito teológico, o conceito é frequentemente associado à predestinação, que trata da determinação divina sobre o destino das almas.

 

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